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Aceitação
Postado por Paulo em Expressões no dia 17 de April de 2009 às 19:43
E estávamos apertados e tínhamos que ir trabalhar sem nenhuma folga, porque sabíamos que não haveria folga nas contas. Todas que sobraram era as mínimas que existiam.
E ela era uma professora nova em uma escola nova com uma turma nova do outro lado da cidade, onde a calçada se mistura com a rua e não há nenhum lugar público para se descansar.
E tarde ela voltava cansada para dormir, já tarde demais para dormir o suficiente. Cedo recomeçava a imensa jornada.
Mas quem prega os olhos depois de horas pensando freneticamente na novidade de um dia inesperado após o outro?
Assim surgiram eles.
Ela que dormia sempre rápido, ela que dormia com a despreocupação de quem sabe que pode, ela que nem acordava quando eu me revirava na cama. Ela, querendo desligar-se de tudo, começou a prestar atenção em todos aqueles que estão ai mostrando sua existência.
Se minha memória não me engana, o primeiro foi o guardinha da ronda de motocicleta. De tempos em tempos, exatamente quando se está no limiar do pensar e do sonhar, ele toca a buzina, buzina até engraçadinha, que te lembra que o mundo ainda existe, e teus problemas não se foram.
Depois de algumas horas deitada, ela levantava, abria a janela e ficava olhando a escuridão a procura dele. Eu sei, já estive naquela janela e sempre me congratulo por não ter uma espingarda.
Ela diz que uma vez desceu a cata do dito cujo. Não o encontrou, mas encontrou toda a burocracia que existe se você realmente tenta denunciá-lo para a polícia. É, aquelas poucas horas entre um dia cheio e outro foram recheadas de várias idéias. Confesso, para minha vergonha, que dormia.
Essas horas noturnas insones intercaladas de dias cheios e complicados, seguiram-se por muito tempo. Aos poucos ela foi ganhando segurança no trabalho, aos poucos ela começou a ter oferta de trabalho em escolas mais perto de onde moramos. Aos poucos ela abandonou a janela.
Um pouco antes me lembro dela chegando em casa, a sogra para jantar, ela ainda com aulas a elaborar, e o trovão começando no visinho de cima.
O trovão começou por essa época e durou pouco. Lá por volta da 8 horas da noite, havia intensa movimentação pela sala e quarto, um trovejar de passos correndo de um lado pelo outro. Rápido surdo e profundo. E invariável.
Devia ter sido um dia particularmente complicado, pois numa explosão de raiva declarou Agora vou lá conversar com esses caras. Calma, vou lá com você. Subimos pelas escadas, tocamos a campainha, eu ligeiramente a frente dela. Imediatamente abre a porta um rapaz com cara de olá, quem são vocês e segundos depois ecoa o som trovejante em direção à porta, enquanto contemplamos uma menina ao fundo com uma das pernas totalmente esticada girando em torno de si.
E o trovão chega, oi, e nós mudos. Aconteceu alguma coisa? Ah, desculpe incomodar, mas somos os visinhos de baixo e vocês estão fazendo muito barulho. Ah, desculpa, não queríamos incomodar, e o trovão com cara de choro. A Flavia muda, absolutamente muda, eu não a vi, mas conhecendo ela, devia estar olhando o trovão profundamente.
Agradeci, descemos, jantamos, e nunca mais nos preocupamos com crianças correndo de uma ponta a outra da sala.
Irritabilidade
Postado por Paulo em Expressões no dia 12 de April de 2009 às 0:42
A Outra fez um post sobre vizinhos que me lembrou de uma história longa. Vou começar a relembrar nesse post.
Eu nasci com horror ao barulho dos pingos da torneira. Todo relógio de corda bom, é um relógio sem corda. É congênito, codificado em algum dos meus genes e potencializado por uma miríade de irmãos com despertadores. Aquele relógio despertador com dois sinos sobre sua sisuda carapaça… o que melhor pode-se fazer com ele do que jogá-lo na parede ou pela janela (aberta)?
Eu cresci, não morava mais com meus irmãos e me mudei para o 14º andar de um apartamento no subúrbio. Quatorze andares. Metros e metros acima do solo. Apartamento novo, todas as torneiras novas, com as janelas voltadas para trás da avenida que dá acesso à cidade. Paraíso no céu.
No segundo ano morando divinamente, uma casa térrea, velha, simpática, indistinta, virada para a rua de trás, tem uma torneira de tanque que pinga mirando minha janela. Eu sei, são 14 andares!
E ela pinga, religiosamente pinga. Qual o pecado que me condena a escutar esse pinga-pinga com todo esse espaço entre nós?
Dias insones depois, percebo… O pecado do silêncio. Não há nada entre eu, meu sono perdido, e a torneira, com uma borracha velha.
Resolver essa questão foi uma das minhas mais complicadas introspecções. Eu e meu velho inimigo, o som repetitivo…
No fim ganhei, mas tive que redefinir, literalmente, todos os meus inimigos.
- O cachorro latindo, não é meu inimigo, ele late porque precisa.
- O gato miando, não tem culpa de miar, não é meu inimigo.
- A torneira… ah, a torneira… aquilo quilo que pinga inga e volta olta, é só a torneira de um dono tão desencanado quanto eu que não se preocupa com várias coisas nada importantes, como a torneira no fundo do quintal.
Então dormi.





