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As pontes para as rosas
Postado por Paulo em Expressões no dia 15 de April de 2009 às 17:38
Uma das mais antigas discussões é se os nomes das coisas definem como entendemos as coisas. Essa visão de que a língua é um conjunto de nomenclatura que um determinado povo cria para expressar sua visão de mundo é muito difundida. Veja por exemplo: Shakespeare had roses all wrong.
O programa da NPR indica os dados de uma pesquisa com falantes de idiomas diferentes onde os substantivos, ‘ponte’ no caso, diferem quanto ao gênero. No idioma em que ele é masculino, seus falantes tendem a enxergar nele atributos masculinos (ponte firme, ponte longa) e vice-versa, quando o substantivo é feminino tendem a atribuir adjetivos femininos (ponte delicada, ponte bonita). Por fim, termina afirmando que se dermos um saco contendo rosas para alguém cheirar mas dissermos ‘que cheiro tem esse mato’ as respostas serão diferentes de quando dissermos ‘que cheiro tem essas rosas’.
Conclusão, a forma que nomeamos as coisas indica como as enxergamos. E, pelo caso da rosa, o próprio idioma influencia, e por extensão, reduz aquilo que somos capazes de compreender.
Será?
Do que eu discordo é que haja qualquer determinação ou restrição imposta em princípio pelo idioma. O que existe são contaminações de sentido. Quando pensamos n’a ponte’, o sentido contido em ‘a’ impregna o sentido de ‘ponte’, ele feminiliza ponte. A ponte se torna frágil, linda, esbelta. Mas não há nada de errado em dizer ‘a ponte forte’, ‘a ponte potente’ em português onde ‘ponte’ é substantivo feminino. Não somos limitados, não temos nenhuma dificuldade em pensar atributos masculinos à ponte.
E os dados da pesquisa? Os dados da pesquisa indicam apenas que as pessoas tendem a adjetivar todo o conjunto ‘a ponte’ ou ‘o ponte’. Assim como elas são influenciadas pelo sentido de ‘mato’ e de ‘rosa’ quando precisam adjetivar o que cheiraram. Não é um ato determinante, é indutivo, mas não redutor. Se fosse redutor, tudo mundo que fala português acharia que ‘uma ponte robusta’ é uma contradição.
E os índios? Bem, os índios dizem simplesmente ‘eu falo ontem com você’. Alguém duvida que isso é uma frase no passado?





