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Problematizando o problema da imprensa
Postado por Paulo em Expressões no dia 20 de April de 2009 às 14:18
Conversando com Leonardo, do Reinventando Santa Maria, sobre a questão da liberdade de imprensa, e de expressão, foi assentando na minha cabeça os núcleos em volta dos quais essa discussão gira. Vou tentar aqui, colocá-los de forma mais sucinta.
Vou chamar de ‘notícia’ todo texto dito de impressa, produto primário do jornalista, que se proponha relatar um fato¹.
O Leonardo aponta que, embora toda notícia contenha em si certo desvio inevitável gerado na perspectivação do fato narrado, esse desvio precisa ter um limite. E, anterior a isso e mais importante, é legítimo exigir da imprensa, e dos jornalistas que a fazem, a minimização desse desvio.
Esse argumento é bastante forte. Como negar que não é legítimo exigir de quem se propõe a contar um fato que se atenha a ele.
Meu problema começa quando eu penso em ‘quanto’. Quanto a imprensa deve se ater ao fato? Aceitando-se que sempre haverá um desvio no relato gerado pela perspectivação do fato, o que seria um desvio aceitável e, principalmente, quando o desvio é tamanho que se torna inaceitável, gera uma distorção? É possível elegermos critérios que separe a notícia da distorção? Por negação, o Leonardo mostra que isso não só é possível, como é cotidiano.
Imaginar que não podemos usar legitimamente a idéia de distorção é imaginar que não podemos eleger critérios, padrões públicos de correção. Se não temos critérios e meios de correção, se nem mesmo admitimos a possibilidade posta pela idéia de uma oposição entre “notícias” e “distorções”, então como teremos a certeza de que não pensamos e deduzimos as mais loucas fantasias daquilo que lemos?
Com o quê eu concordo quase que integralmente. Sim, nós elegemos cotidianamente critérios que separam a notícia da distorção – não somos seres tão incoerentes assim, espero.
O problema está em “padrões públicos de correção”. Os meus critérios é uma coisa (digamos, ’subjetivos’²), os critérios públicos é outra e uma não implica na existência automática da outra, e menos ainda implica-se a igualdade de ambas. Com o quê o Leonardo concorda quando diz à frente:
Esse COMO delimitaremos é um aspecto ainda a ser discutido e, OBVIAMENTE, ele não envolve censura prévia, mas uma discussão em torno de liberdade de imprensa e expressão e práticas jurídicas, culturais, que considerem a diferença entre um bom trabalho, que se instale dentro do espaço AMPLO de flexibilidade onde os interesses podem manipular as notícias e fatos sem distorcê-los, e um trabalho que opere mudanças acintosas e inaceitáveis.
É do exercício de se chegar a um consenso que teríamos critérios públicos capazes de separar a notícia da distorção. Entendo que de “práticas jurídicas e culturais” decorre que o consenso deve ser nacional, afinal a imprensa é nacional, e embarca toda a sociedade.
É possível chegar a um consenso sobre esses critérios? Mesmo que o exercício seja democrático e participativo, haveria minorias que certamente ficariam descontentes com tais critérios. Por ampla que seja essa flexibilidade, não consigo imaginar um consenso unânime. E, caso houvesse um consenso majoritário e tivéssemos critérios objetivos de classificação, de determinação da notícia, sua própria existência implicaria em censura ao texto. O texto para ser notícia teria de estar em conformidade com determinadas regras e formas colocadas não pelo autor, mas pela sociedade. Isso é censura prévia, sim, e geralmente é autoimposta.
O problema aqui é que estamos querendo englobar a sociedade toda. Os processos de geração de “praticas jurídicas e culturais”, em especial em sociedade como a nossa com pouquíssimas histórias de participação popular, estão longe de serem democráticos. Geralmente terminam definindo práticas coercivas e são sujeitos a pressões de agentes com forças bastante desiguais de persuasão. Nossa tradição jurídica é normativa e os processos culturais definidores do que é normal com freqüência assustadora leva à supressão do anormal, ao pária.
A questão, que o Leonardo julga secundária, de como definir um limite entre notícia e distorção, a meu ver torna-se central.
Muito bem, sem saída, então?
Acho que há um campo um pouco mais promissor para olhar essa questão toda que vem de uma discussão antiga na literatura: o autor, a obra e o leitor. Num próximo post, vou tentar amarrar essa questão não do ponto de vista da produção do texto mas do consumo, numa tradição bastante valeriana.
Notas:
¹Não quero entrar na discussão do que seria um fato. Nesse texto implica certa realidade que qualquer um pode tentar exprimir.
²Subjetivo aqui é algo intrinsecamente ligado à interpretação individual, em contraposição à interpretação social, consensual ou majoritária. Conhecer a interpretação majoritária que um público daria uma frase permite ao autor ter algum grau de sucesso na intencionalidade do texto. Mas a realização do texto se dá na leitura e esta é sempre individual e subjetiva, mesmo que esse indivíduo seja histórico-culturalmente definido.
O achismo e visão critica
Postado por Paulo em Expressões no dia 5 de April de 2009 às 23:12
Às vezes, gastamos um tempão tentando coordenar uma idéia para que ela saia clara e simples. Outras, ela cai no seu colo:
Há “achismos”, sim, opiniões pouco fundamentadas, com certeza, mas como internauta de pouco tempo, já me sinto capaz de avaliar bastante bem o que sai da linha da mediocridade naqueles temas que me interessam. Acho a democratização da informação um bem maior, muito maior, do que essa preocupação com os achismos. O achismo nos faz preocupar em saber quem está falando, de onde está falando… Ora, isso é ótimo!!!! É tudo o que os donos das “informações avalizadas” (pela grande mídia, por um título acadêmico ou por um posto oficial) não gostariam que perguntássemos.
Eu só iria um pouco mais além e também colocaria na roda essa coisa de opinião medíocre. Medíocre porque não há nada que dê suporte à opinião? E o que é dar suporte? Fundamentar em fatos? E o que são fatos? São verdades inquestionáveis? Então não seriam opiniões, são claúsulas irrefutáveis, não é? Autoevidentes do alto da sabiência de quem as tem. Eu chamo isso de dogma mesmo.
Leia o post O Culto do amador ou do especialista? do Marcos Donizzeti, vale a pena, juro. E, sim, é verdade que eu só continuei até o fim o post no Pragma porque eu conheço algumas posições do Marcos que me fizerem pensar que tudo aquilo estava sendo dito por alguma outra razão…





