Tag A Outra

Irritabilidade

A Outra fez um post sobre vizinhos que me lembrou de uma história longa. Vou começar a relembrar nesse post.

Eu nasci com horror ao barulho dos pingos da torneira. Todo relógio de corda bom, é um relógio sem corda. É congênito, codificado em algum dos meus genes e potencializado por uma miríade de irmãos com despertadores. Aquele relógio despertador com dois sinos sobre sua sisuda carapaça… o que melhor pode-se fazer com ele do que jogá-lo na parede ou pela janela (aberta)?

Eu cresci, não morava mais com meus irmãos e me mudei para o 14º andar de um apartamento no subúrbio. Quatorze andares. Metros e metros acima do solo. Apartamento novo, todas as torneiras novas, com as janelas voltadas para trás da avenida que dá acesso à cidade. Paraíso no céu.

No segundo ano morando divinamente, uma casa térrea, velha, simpática, indistinta, virada para a rua de trás, tem uma torneira de tanque que pinga mirando minha janela. Eu sei, são 14 andares!

E ela pinga, religiosamente pinga. Qual o pecado que me condena a escutar esse pinga-pinga com todo esse espaço entre nós?

Dias insones depois, percebo… O pecado do silêncio. Não há nada entre eu, meu sono perdido, e a torneira, com uma borracha velha.

Resolver essa questão foi uma das minhas mais complicadas introspecções. Eu e meu velho inimigo, o som repetitivo…

No fim ganhei, mas tive que redefinir, literalmente, todos os meus inimigos.

- O cachorro latindo, não é meu inimigo, ele late porque precisa.
- O gato miando, não tem culpa de miar, não é meu inimigo.
- A torneira… ah, a torneira… aquilo quilo que pinga inga e volta olta, é só a torneira de um dono tão desencanado quanto eu que não se preocupa com várias coisas nada importantes, como a torneira no fundo do quintal.

Então dormi.

,

4 Comentários