Categoria Expressões

É de mim que estão falando

Grito do Jardim Romano alagado postado originalmente no Nassif:

SOU MORADORA DO BAIRRO JD ROMANO DESDE 1971, AQUI DESDE DE ENTÃO NUNCA HOUVE NADA PARECIDO COM O QUE ESTA ACONTECENDO AGORA, JÁ IMAGINAVA QUE HAVIA ALGO ESTRANHO, MAS NADA TÃO AGRESSIVO QUANTO O QUE ESTA DESCRITO, POIS É INCONCEBIVEL QUE ESTA INUNDAÇÃO TENHA SIDO CAUSADA PELAS ULTIMAS CHUVAS, ESTOU INDIGNADA COM A SITUAÇÃO, LAMENTO QUE EXISTAM TANTOS PROFISSIONAIS ENVOLVIDOS ( NA SABESP, PREFEITURA, EMPRESAS PRIVADAS) QUE ESTUDARAM TANTO MAS QUE SÃO INCAPAZES DE MENSSURAREM OS DANOS CAUSADOS AS FAMILIAS VITIMAS DE TAMANHA FALTA DE RESPONSABILIDADE, SERA QUE ALGUEM IMAGINA OS DANOS, PESSOAIS , PSICOLOGICOS, MATERIAIS, ETC. ESTAMOS SOFRENDO PRESOS DENTRO DE NOSSAS CASAS, SEM SABER QUANDO A SITUAÇÃO SERA RESOLVIDA, PARA AONDE IR, PRA ESCOLA, PRA CRECHE, OU PRA IGREJA? NINGUEM DA NENHUMA SATISFAÇÃO. QUERO SABER QUEM VAI PAGAR OS PREJUIZOS CAUSADOS PELA INRRESPONSABILIDADE, POIS SE É FALHA HUMANA EXISTE RESPONSAVEL E SENDO ASSIM ALGUEM TEM QUE PAGAR. SOMOS UM BAIRRO INTEIRO. MERECEMOS NO MINIMO EXPLICAÇÕES. ROSANIA PESQUEIRA DA SILVA (11) 9799-6543.

Segundo Conceição Lemes no Viamundo em entrevista com José Arraes (com sequência na NaMaria), o gerenciamento das águas foi privatizado. Quando uma empresa privada busca seu lucro ela age somente em função disso. Não importa se isso gera problemas para o resto da sociedade. Os economistas, como nosso governador Serra, chamam pomposamente de Externalidades Negativas. Esse nome chic esconde o que a Rosania chama “Sofrer dentro de nossas casas”.

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A volta de Mel

Não sei se foi ideia de Manuel Zelaya, ou de Chávez, ou do Itamaraty, ou mesmo do Lula, mas aparecer na embaixada brasileira em Tegucigalpa no dia de abertura da assembleia geral da ONU, foi genial… e eu que achava que Mel estava isolado e perdido.

Escutem a Rádio Globo (de Honduras)… com esse nome eu jamais imaginaria que estaria escutando com tanto gosto… Prova de que todo significante é arbitrariamente vinculado a um significado…

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De volta

Voltamos, consegui um tempinho para colocar os blogs do algumlugar de volta.

De alguma forma algum hacker conseguiu a senha central do site e com ela estava inserindo um link para uma página com um programinha mal intencionado qualquer. Como estava sem tempo, resolvi simplesmente tirar tudo do ar para não contaminhar ninguém inadivertidamente.

Agora voltamos ao normal, tomando alguns cuidados maiores com essa senha importante.

Desculpem a demora!

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A queda do direito de resposta

Eu gostaria de discutir se a questão do direito a resposta ao ataque à honra ou à reputação de outra pessoa é cabível quando o meio de propagar os ataques é aberto e acessível a ambas as partes. Mas tropecei e cai de cara no chão quando li algumas leis apontadas pelo Idelber.

Os passos da queda.

Se alguém escreve sobre mim o que der na cabeça dele em um jornal e eu não gostar do que foi escrito, eu não tenho como contrapor com a mesma capacidade de penetração pública porque não tenho um jornal. Pedir o mesmo espaço usado no mesmo meio de divulgação faz sentido.

Se alguém sobe em um caixote em praça pública e fala sobre mim o que der na telha e eu não gostar do que foi dito eu tenho como contrapor com a mesma capacidade de penetração pública porque me basta um caixote do mesmo tamanho. Qual é o sentido de pedir direito a resposta?

Mais um passo.

Outra coisa que eu posso fazer com qualquer um dos dois é processá-lo por calúnia, difamação ou injuria. Basta o que ele tenha escrito ou dito que eu cometi um crime sem que isso seja verdade ou tenha ofendido minha reputação ou ofendido minha dignidade ou decoro.

Vamos supor só por um momento que o acesso à justiça seja universal e que ela seja rápida e eficaz e, não menos importante, que saibamos todos o que seja verdade, ofensa, reputação, dignidade e decoro.

Se alguém, seja lá quem for, tenha me caluniado, difamado ou injuriado então é meu direito processá-lo e, como a justiça é cristalina e célere, ele será condenado. Se ele fez isso na sala da casa dele ou em cadeia nacional só importa para definir o tamanho da pena. Mas se ele se retratar cabalmente (novamente, sabemos o que isso significa) fica isento da pena. É justo, não?

Mais outro passo.

Se alguém oculta sua identidade quando diz o que veem à telha com o intuito de me causar dano, inclusive caluniar, difamar ou injuriar, comete mais um crime. Novamente, sabemos o que é ocultar e causar dano e, lembre-se, a justiça é célere e equitativa.

Se surge algum novo modo de ocultar a identidade, é claro que isso fere em si meu direito de saber quem me ataca e meu direito à justiça. Para isso que o legislativo está atento as mudanças sociais e impede que um possível criminoso se oculte do braço da justiça.

Tropeço final.

Comeceipor perguntar por que a liberdade de dizer o que quer que seja sobre quem quer que seja deveria ser cerceada quando o meio de divulgação é publico e acessível a todos e terminei descobrindo que isso não importa porque a liberdade de dizer o que se quer não existe.

A reputação, a honra, a dignidade e o decoro de alguém não podem ser jamais contestados ou atacados ou desconstruídos.

Tudo isso, obviamente, se eu soubesse o que significa para a justiça, para a sociedade e, pensando bem, mesmo para mim o que é reputação, honra, dignidade e decoro.

De cara no chão.

O que mais me irrita quando caio assim é lembrar que quis entrar nessa discussão para defender gente que eu não só discordo muito como adoraria caluniar e difamar e injuriar com megafone na mão, como o Gravataí Merengue, de gente que eu até discordo com razoável frequência, mas respeito, como Luís Nassif.

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Doce preguiça doce

Eu estou devendo a continuação de um argumento esboçado lá embaixo sobre Paul Valéry e a poética como campo de sentidos gerados na leitura da obra e como eu acho que isso tem paralelo com a questão da liberdade de expressão e a valorização da informação escrita.

Vou continuar devendo :) .

Nunca é bom desperdiçar um domingo de sol pensando tanto que se esquece do entorno. Essa poderia ser acrescentada às desculpas paulinas. (nota mental, preciso parar de invendar esses adjetivos bobos…)

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Problematizando o problema da imprensa

Conversando com Leonardo, do Reinventando Santa Maria, sobre a questão da liberdade de imprensa, e de expressão, foi assentando na minha cabeça os núcleos em volta dos quais essa discussão gira. Vou tentar aqui, colocá-los de forma mais sucinta.

Vou chamar de ‘notícia’ todo texto dito de impressa, produto primário do jornalista, que se proponha relatar um fato¹.

O Leonardo aponta que, embora toda notícia contenha em si certo desvio inevitável gerado na perspectivação do fato narrado, esse desvio precisa ter um limite. E, anterior a isso e mais importante, é legítimo exigir da imprensa, e dos jornalistas que a fazem, a minimização desse desvio.

Esse argumento é bastante forte. Como negar que não é legítimo exigir de quem se propõe a contar um fato que se atenha a ele.

Meu problema começa quando eu penso em ‘quanto’. Quanto a imprensa deve se ater ao fato? Aceitando-se que sempre haverá um desvio no relato gerado pela perspectivação do fato, o que seria um desvio aceitável e, principalmente, quando o desvio é tamanho que se torna inaceitável, gera uma distorção? É possível elegermos critérios que separe a notícia da distorção? Por negação, o Leonardo mostra que isso não só é possível, como é cotidiano.

Imaginar que não podemos usar legitimamente a idéia de distorção é imaginar que não podemos eleger critérios, padrões públicos de correção. Se não temos critérios e meios de correção, se nem mesmo admitimos a possibilidade posta pela idéia de uma oposição entre “notícias” e “distorções”, então como teremos a certeza de que não pensamos e deduzimos as mais loucas fantasias daquilo que lemos?

Com o quê eu concordo quase que integralmente. Sim, nós elegemos cotidianamente critérios que separam a notícia da distorção – não somos seres tão incoerentes assim, espero.

O problema está em “padrões públicos de correção”. Os meus critérios é uma coisa (digamos, ’subjetivos’²), os critérios públicos é outra e uma não implica na existência automática da outra, e menos ainda implica-se a igualdade de ambas. Com o quê o Leonardo concorda quando diz à frente:

Esse COMO delimitaremos é um aspecto ainda a ser discutido e, OBVIAMENTE, ele não envolve censura prévia, mas uma discussão em torno de liberdade de imprensa e expressão e práticas jurídicas, culturais, que considerem a diferença entre um bom trabalho, que se instale dentro do espaço AMPLO de flexibilidade onde os interesses podem manipular as notícias e fatos sem distorcê-los, e um trabalho que opere mudanças acintosas e inaceitáveis.

É do exercício de se chegar a um consenso que teríamos critérios públicos capazes de separar a notícia da distorção. Entendo que de “práticas jurídicas e culturais” decorre que o consenso deve ser nacional, afinal a imprensa é nacional, e embarca toda a sociedade.

É possível chegar a um consenso sobre esses critérios? Mesmo que o exercício seja democrático e participativo, haveria minorias que certamente ficariam descontentes com tais critérios. Por ampla que seja essa flexibilidade, não consigo imaginar um consenso unânime. E, caso houvesse um consenso majoritário e tivéssemos critérios objetivos de classificação, de determinação da notícia, sua própria existência implicaria em censura ao texto. O texto para ser notícia teria de estar em conformidade com determinadas regras e formas colocadas não pelo autor, mas pela sociedade. Isso é censura prévia, sim, e geralmente é autoimposta.

O problema aqui é que estamos querendo englobar a sociedade toda. Os processos de geração de “praticas jurídicas e culturais”, em especial em sociedade como a nossa com pouquíssimas histórias de participação popular, estão longe de serem democráticos. Geralmente terminam definindo práticas coercivas e são sujeitos a pressões de agentes com forças bastante desiguais de persuasão. Nossa tradição jurídica é normativa e os processos culturais definidores do que é normal com freqüência assustadora leva à supressão do anormal, ao pária.

A questão, que o Leonardo julga secundária, de como definir um limite entre notícia e distorção, a meu ver torna-se central.

Muito bem, sem saída, então?

Acho que há um campo um pouco mais promissor para olhar essa questão toda que vem de uma discussão antiga na literatura: o autor, a obra e o leitor. Num próximo post, vou tentar amarrar essa questão não do ponto de vista da produção do texto mas do consumo, numa tradição bastante valeriana.



Notas:
¹Não quero entrar na discussão do que seria um fato. Nesse texto implica certa realidade que qualquer um pode tentar exprimir.
²Subjetivo aqui é algo intrinsecamente ligado à interpretação individual, em contraposição à interpretação social, consensual ou majoritária. Conhecer a interpretação majoritária que um público daria uma frase permite ao autor ter algum grau de sucesso na intencionalidade do texto. Mas a realização do texto se dá na leitura e esta é sempre individual e subjetiva, mesmo que esse indivíduo seja histórico-culturalmente definido.

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Aceitação

E estávamos apertados e tínhamos que ir trabalhar sem nenhuma folga, porque sabíamos que não haveria folga nas contas. Todas que sobraram era as mínimas que existiam.

E ela era uma professora nova em uma escola nova com uma turma nova do outro lado da cidade, onde a calçada se mistura com a rua e não há nenhum lugar público para se descansar.

E tarde ela voltava cansada para dormir, já tarde demais para dormir o suficiente. Cedo recomeçava a imensa jornada.

Mas quem prega os olhos depois de horas pensando freneticamente na novidade de um dia inesperado após o outro?

Assim surgiram eles.

Ela que dormia sempre rápido, ela que dormia com a despreocupação de quem sabe que pode, ela que nem acordava quando eu me revirava na cama. Ela, querendo desligar-se de tudo, começou a prestar atenção em todos aqueles que estão ai mostrando sua existência.

Se minha memória não me engana, o primeiro foi o guardinha da ronda de motocicleta. De tempos em tempos, exatamente quando se está no limiar do pensar e do sonhar, ele toca a buzina, buzina até engraçadinha, que te lembra que o mundo ainda existe, e teus problemas não se foram.

Depois de algumas horas deitada, ela levantava, abria a janela e ficava olhando a escuridão a procura dele. Eu sei, já estive naquela janela e sempre me congratulo por não ter uma espingarda.

Ela diz que uma vez desceu a cata do dito cujo. Não o encontrou, mas encontrou toda a burocracia que existe se você realmente tenta denunciá-lo para a polícia. É, aquelas poucas horas entre um dia cheio e outro foram recheadas de várias idéias. Confesso, para minha vergonha, que dormia.

Essas horas noturnas insones intercaladas de dias cheios e complicados, seguiram-se por muito tempo. Aos poucos ela foi ganhando segurança no trabalho, aos poucos ela começou a ter oferta de trabalho em escolas mais perto de onde moramos. Aos poucos ela abandonou a janela.

Um pouco antes me lembro dela chegando em casa, a sogra para jantar, ela ainda com aulas a elaborar, e o trovão começando no visinho de cima.

O trovão começou por essa época e durou pouco. Lá por volta da 8 horas da noite, havia intensa movimentação pela sala e quarto, um trovejar de passos correndo de um lado pelo outro. Rápido surdo e profundo. E invariável.

Devia ter sido um dia particularmente complicado, pois numa explosão de raiva declarou Agora vou lá conversar com esses caras. Calma, vou lá com você. Subimos pelas escadas, tocamos a campainha, eu ligeiramente a frente dela. Imediatamente abre a porta um rapaz com cara de olá, quem são vocês e segundos depois ecoa o som trovejante em direção à porta, enquanto contemplamos uma menina ao fundo com uma das pernas totalmente esticada girando em torno de si.

E o trovão chega, oi, e nós mudos. Aconteceu alguma coisa? Ah, desculpe incomodar, mas somos os visinhos de baixo e vocês estão fazendo muito barulho. Ah, desculpa, não queríamos incomodar, e o trovão com cara de choro. A Flavia muda, absolutamente muda, eu não a vi, mas conhecendo ela, devia estar olhando o trovão profundamente.

Agradeci, descemos, jantamos, e nunca mais nos preocupamos com crianças correndo de uma ponta a outra da sala.

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Invasão no Algodão

Achei um algodão com cara de algodão e comecei dai a puxar o fio na roca… espero que tenha gostado!

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As pontes para as rosas

Uma das mais antigas discussões é se os nomes das coisas definem como entendemos as coisas. Essa visão de que a língua é um conjunto de nomenclatura que um determinado povo cria para expressar sua visão de mundo é muito difundida. Veja por exemplo: Shakespeare had roses all wrong.

O programa da NPR indica os dados de uma pesquisa com falantes de idiomas diferentes onde os substantivos, ‘ponte’ no caso, diferem quanto ao gênero. No idioma em que ele é masculino, seus falantes tendem a enxergar nele atributos masculinos (ponte firme, ponte longa) e vice-versa, quando o substantivo é feminino tendem a atribuir adjetivos femininos (ponte delicada, ponte bonita). Por fim, termina afirmando que se dermos um saco contendo rosas para alguém cheirar mas dissermos ‘que cheiro tem esse mato’ as respostas serão diferentes de quando dissermos ‘que cheiro tem essas rosas’.

Conclusão, a forma que nomeamos as coisas indica como as enxergamos. E, pelo caso da rosa, o próprio idioma influencia, e por extensão, reduz aquilo que somos capazes de compreender.

Será?

Do que eu discordo é que haja qualquer determinação ou restrição imposta em princípio pelo idioma. O que existe são contaminações de sentido. Quando pensamos n’a ponte’, o sentido contido em ‘a’ impregna o sentido de ‘ponte’, ele feminiliza ponte. A ponte se torna frágil, linda, esbelta. Mas não há nada de errado em dizer ‘a ponte forte’, ‘a ponte potente’ em português onde ‘ponte’ é substantivo feminino. Não somos limitados, não temos nenhuma dificuldade em pensar atributos masculinos à ponte.

E os dados da pesquisa? Os dados da pesquisa indicam apenas que as pessoas tendem a adjetivar todo o conjunto ‘a ponte’ ou ‘o ponte’. Assim como elas são influenciadas pelo sentido de ‘mato’ e de ‘rosa’ quando precisam adjetivar o que cheiraram. Não é um ato determinante, é indutivo, mas não redutor. Se fosse redutor, tudo mundo que fala português acharia que ‘uma ponte robusta’ é uma contradição.

E os índios? Bem, os índios dizem simplesmente ‘eu falo ontem com você’. Alguém duvida que isso é uma frase no passado?

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Irritabilidade

A Outra fez um post sobre vizinhos que me lembrou de uma história longa. Vou começar a relembrar nesse post.

Eu nasci com horror ao barulho dos pingos da torneira. Todo relógio de corda bom, é um relógio sem corda. É congênito, codificado em algum dos meus genes e potencializado por uma miríade de irmãos com despertadores. Aquele relógio despertador com dois sinos sobre sua sisuda carapaça… o que melhor pode-se fazer com ele do que jogá-lo na parede ou pela janela (aberta)?

Eu cresci, não morava mais com meus irmãos e me mudei para o 14º andar de um apartamento no subúrbio. Quatorze andares. Metros e metros acima do solo. Apartamento novo, todas as torneiras novas, com as janelas voltadas para trás da avenida que dá acesso à cidade. Paraíso no céu.

No segundo ano morando divinamente, uma casa térrea, velha, simpática, indistinta, virada para a rua de trás, tem uma torneira de tanque que pinga mirando minha janela. Eu sei, são 14 andares!

E ela pinga, religiosamente pinga. Qual o pecado que me condena a escutar esse pinga-pinga com todo esse espaço entre nós?

Dias insones depois, percebo… O pecado do silêncio. Não há nada entre eu, meu sono perdido, e a torneira, com uma borracha velha.

Resolver essa questão foi uma das minhas mais complicadas introspecções. Eu e meu velho inimigo, o som repetitivo…

No fim ganhei, mas tive que redefinir, literalmente, todos os meus inimigos.

- O cachorro latindo, não é meu inimigo, ele late porque precisa.
- O gato miando, não tem culpa de miar, não é meu inimigo.
- A torneira… ah, a torneira… aquilo quilo que pinga inga e volta olta, é só a torneira de um dono tão desencanado quanto eu que não se preocupa com várias coisas nada importantes, como a torneira no fundo do quintal.

Então dormi.

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